Chef Philippe Remondeau e a Tasca do Francês em Lisboa

Logo que cheguei a Lisboa, já fiz amizades com alguns gaúchos. Aqueles amigos que nem te conhecem ainda. Mas são de suma importância pra quem está a chegar sozinho em um outro país. A prima da ex-colega de colégio. A tia da amiga de curso que mora em Lisboa há tempos. A ex-colega de trabalho que você nunca conversou. Ou aquela que a gente conhece há 20 anos e só agora descobriu uma afinidade em comum: mora em Lisboa.

Desses gaúchos espalhados pelo mundo, a gente recebe atenção, carinho, uma feijoada gostosa num domingo qualquer. Mas também muitas dicas do que fazer, onde ir ou quando ir. Foi nessas conversas que descobri que o chef Philippe Remondeau, antigo dono do restaurante Chez Philippe, em Porto Alegre, estava a viver em Lisboa e tinha aberto seu novo estabelecimento em terras portuguesas, a Tasca do Francês. O Chez Philippe era praticamente ao lado da minha casa na capital gaúcha.

Então, fui atrás do chef para uma entrevista curiosa sobre “por onde anda”, “o que está a fazer” e “por que se foi” do Brasil. Essa última anda bem fácil de responder ultimamente. Mas cada um tem sua história. Assim como o chef, eu também tenho a minha, mas ela fica pra outra hora. Quem sabe marcamos um bar no Chiado ou na Baixa para conversar disso? Que tal?

Bem. Fiquei de visitar a Tasca do Francês na hora do almoço para que, depois de fechado, o chef Philippe pudesse dar uma palavrinha conosco.

Meio da semana. Um sol escaldante em Lisboa, 33 graus. Lá fui eu com meus apetrechos e um bocado de fome à Tasca do Francês.

Menu do dia bem interessante: entrada, prato principal e sobremesa, ou sem sobremesa. Eu sempre peço sobremesa, oras! A entrada foi uma salada verde com presunto (seria o nosso presunto cru ou espanhol), queijo brie e azeite. Uma delícia!

Prato principal, um cachaço de porco gratinado com mostarda dijon. Para acompanhar, uma taça de vinho branco, bem geladinho, da Quinta da Giesta.

A sobremesa parecia simples, eu disse parecia. Foi muito interessante pela qualidade dos ingredientes: sorvete de maracujá e de baunilha com merengue e crocante por cima. Estava divino.

Depois disso, só restaram eu e o chef para um bate-papo. Chef Philippe Remondeau, 49 anos, e um amor brasileiro que o levou da França para o Brasil e que aportou em terras do além-mar.

Como começou na gastronomia?

Foi desde pequeno. Meu pai tinha um restaurante numa cidadezinha no interior da França, comecei por lá mesmo. Depois, trabalhei em hotel, fui para a Inglaterra e voltei à França por mais dois anos. Só na sequência é que fui para o Brasil.

Por que o Brasil?

Saí da França pro Brasil em 91 ou 92, porque conheci minha esposa, que é brasileira. Foi inevitável. Conheci ela e fomos morar lá. Pra ir morar tão longe só por amor mesmo. (risos)

E qual o motivo de deixar o Brasil?

O Brasil é um país que, infelizmente, tem muita inconsistência política e a questão da insegurança. Meu pai me falou de Portugal há alguns anos, disse que eu devia vir pra cá. Comentou que aqui era um país que estava em crescimento e pronto. Nesse meio tempo, ele faleceu. Tive que vir à Europa por causa disso e em seguida aproveitei pra conhecer Portugal. Fui ao Porto, Algarve e me encantei por Lisboa.

Quais foram as razões da escolha por permanecer em Lisboa?

É uma cidade simpática, agradável de se viver. Súper segura. Chega a ser uma loucura. É mais segura que a França. Essa questão, aqui, é sensacional. O clima é maravilhoso, com exceção deste ano, que choveu muito no inverno e o verão custou a chegar. Sobre o restaurante, comprei o negócio montado há 15 meses, dei uma ajeitadinha, refiz a decoração. E pronto!

O que te encanta na capital dos portugueses?

A cidade por ela mesma: alegre, bonita e colorida – muito ensolarada. É como estar em uma capital com cara de cidade do interior. Aqui temos acesso a produtos de muita qualidade. Os portugueses são pessoas muito agradáveis e simpáticas, fáceis de se relacionar. Aqui, não tenho carro. Tenho uma scooter. Quando quero viajar eu alugo um carro e pronto. Quer ir à praia? Pega um trem e está lá em pouco tempo: Costa da Caparica, Cascais, Sesimbra. Lisboa é muito perto da França, duas horas de voo. Meus filhos estão lá. Então, é muito prático.

Da gastronomia portuguesa, o que o chef Philippe gosta de comer?

Frutos do mar em geral e o porco preto. Tudo muito bom. Mas tem muitas coisas pra descobrir ainda que eu não conheço. As frutas que vêm dos Açores (maracujá, manga, papaia e abacaxi). Os azeites deles são muito bons. Agora, os vinhos… Vinho aqui é um absurdo o que tem. Pode-se tomar vinhos excelentes por 3 a 4 euros; como pode beber vinhos sensacionais por 20, 25 euros.

Falta visitar algo em Portugal?

Tem muita coisa pra conhecer. Agora, em setembro, vou descer pro Algarve, a região mais próxima da Espanha – Tavira. Vou passar uns três dias com meu cunhado e minha mãe por lá. Fui num casamento na Casa das Torres, no Douro, espetacular. Vinhos excelentes, até servimos aqui na Tasca, o Consensual. Muitos lugares a serem descobertos.

Nunca pensou em voltar pra França?

Nesse período que eu tive que voltar por causa do acontecimento com meu pai, fiquei uns seis meses por lá. Mas não sei como explicar, não consegui me readaptar. Não me interessou. Não me deu vontade de ficar por lá.

Qual a proposta da Tasca do Francês?

Aqui é um restaurante barato onde se come bem. Ele é pequeno e de decoração simpática. Nosso tíquete médio é em torno de 20 euros. Trabalho com produtos frescos, pequenas opções, e que vão mudando conforme o que tem na cozinha. É muito mais fácil. Compro sempre produtos frescos, quase todo dia. Não queremos ter um menu grande. Você pode vir ao restaurante duas a três vezes por semana e sempre vai ter opções diferentes.

Pratos para não perder quando estiver no menu da Tasca?

Tem muitos, na verdade. Nesta semana, tivemos o ossobuco em salada. O crème brûlée, que nunca sai do menu. São muitos pratos interessantes: Clafouti de cereja, confit de pato, entrecôte ou maminha de Angus com molho madeira ou chalotas. Tem muita coisa.

O almoço

  • Menu do dia (com sobremesa) 12 €
  • Copo de vinho Quinta da Giesta 3.5 €

Total = 15.5 

 

Tasca do Francês
Rua da Cruz dos Poiais 89, 1200-136 Lisboa

Um comentário em “Chef Philippe Remondeau e a Tasca do Francês em Lisboa

  • 23 | maio em 21:22
    Permalink

    Muito bom reencontrar o chef Phelippe Remondeau, que acompanhei desde que chegou ao Plaza, em Porto Alegre, e depois no seu próprio restaurante, o Chez Phelippe, na Independência. Fizemos programas de tevê, juntos, no Guerrilheiros da Notícia, da TV Guaíba, com o amigo inesquecível Flávio Alcaraz Gomes.
    Ótima reportagem.
    Parabéns.
    Vou compartilhar e muitos gaúchos irão até a Tasca Francesa, quando estiverem em Lisboa.

    Resposta

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