Desde que decidi vir para Portugal, um dos lugares que mais me chamava a atenção era o Vale do Rio Douro. Pela sua história, pelas vinícolas, pelas quintas e pela paisagem, pelo trem (ou comboio como chamam aqui). Tudo parecia mágico a distância. Em vídeos ou posts de blogs, o Douro era encantador. Mas vê-lo ao vivo foi uma das coisas mais emocionantes que já vivi em viagens.

O comboio parte da estação Campanhã, no Porto. Acordei às 6h da manhã para partir dali às 7h15min. A ligação do Porto a Pocinhos, a parada final no Vale do Douro, sai de duas em duas horas. O trajeto até minha parada, no Pinhão, duraria pouco mais de 2h15min.

A rota até o destino atravessa pequenas cidades e só a partir da metade do percurso é que o trem começa a acompanhar o curso do Douro. Mas não é apenas seguir seu fluxo. Ele percorre, por vezes, a dois metros de distância da água.

As paisagens são incríveis. Vilarejos e quintas se revezam ao longo do caminho. Muito verde e áreas ainda não habitadas também têm seu espaço na zona fluvial. A cidade de Régua é uma das maiores até o Pinhão. São duas paradas antes da minha estação. Da janela do comboio já temos a noção de que se trata de uma cidade completa, embora pequena.

Com cerca de 17 mil habitantes, Peso da Régua (nome original) está inserida no distrito de Vila Real, um dos maiores centros produtores de vinhos do mundo no Alto do Douro. A região foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco. O seu principal centro urbano é a cidade de Vila Real, que – em conjunto com Peso da Régua e Lamego – forma um eixo urbano que concentra mais de 95 mil habitantes.

Chegando a Pinhão

Estava ansioso por esse momento, já que a estação de Pinhão é considerada uma das mais belas do mundo. Tanto pela sua beleza de estação em si, mas também pelos 24 painéis de azulejos pintados a mão que a deixam ainda mais bela. As imagens retratam paisagens do Douro e as vindimas. Em tons de azul, os azulejos são da autoria de J. Oliveira e foram encomendados à fábrica Aleluia, de Aveiro, em 1937.

Saindo da estação, decidi ir a pé até a Quinta de La Rosa (uma das muitas quintas que se encontram na região), local onde eu faria uma visita e degustação de vinhos. A Quinta de La Rosa foi uma indicação de uma amiga portuguesa, a Maria João, uma querida. Ela sabia o que estava a falar. Foi a escolha certa. Apesar do calor de quase 30 graus, o esforço valeu a pena. Foi pouco mais de meia hora de caminhada até lá, mas as fotos, os cheiros e sons valeram cada passo.

Pinhão é uma freguesia do concelho de Alijó, tem menos de mil habitantes e se situa na margem direita do rio Douro. É considerada o centro da região demarcada do Vinho do Porto. A vila, atualmente, recebe cerca de 400 mil turistas por ano.

 

A Quinta de La Rosa

Saindo da estação do Pinhão, foram 20 minutos de caminhada. Poderia ter ido de táxi, mas perderia a caminhada pela ponte de pedestres, o centrinho da cidade, a vila com as lojinhas e muitas fotos bacanas.

Reservei a visitação à Quinta de La Rosa juntamente com a degustação de vinhos ali produzidos dois dias antes. Foi bem tranquilo conseguir a reserva, no entanto, a apresentação e explicações foram em inglês. São três horários para visitação, com degustação ao longo do dia, poucas são em língua portuguesa e devem ser agendadas com mais antecedência. Dá pra saber mais detalhes no site da Quinta. As marcações devem ser feitas por telefone, enviei e-mails e não obtive resposta.

Cheguei uma hora antes do previsto, então sobrou tempo para conhecer melhor a propriedade que, embora pequena, é de uma “mimosidade” ímpar. Tudo ali foi muito bem pensado e estruturado, já que os morros ao longo do Douro são muito altos e íngremes. A Quinta sofreu uma remodelação recente, em que foram contemplados o novo restaurante e loja, que abrem as portas do local para o interior da propriedade, onde também funciona um hotel/pousada.

 

A degustação

A apresentação da parte dos vinhos da vinícola ficou por parte do Sansão, o enólogo responsável por desvendar os mistérios e contar algumas das histórias mais interessantes sobre a Quinta de La Rosa. A Quinta produz cerca de 210 mil litros de vinho por ano, sendo 50 mil de Porto e o restante de vinho de mesa, entre tintos, rosés e brancos.

 

O almoço

Depois da viagem, da degustação e de conhecer o lugar, decidi duas coisas: vou almoçar aqui e ficar uma noite. Não poderia ter feito escolhas mais acertadas. A começar pelo almoço no Cozinha da Clara, o nome do restaurante da Quinta. Além de lindo e com uma vista privilegiada do Douro, tudo que foi pedido veio na medida, tanto no sabor quanto no ótimo atendimento.

Para beber, ou seguir bebendo, escolhi um vinho simples e que pudesse beber geladinho pelo grande calor que fazia. Um Rosé 2016 veio a calhar. Em seguida veio o amuse-bouche (uma pré-entrada) de panacota com compota de abóbora. Depois escolhi de entrada umas Petingas, pequenas sardinhas fritas e acompanhadas de molho aioli de tomates secos. Também veio um pão de broa com azeite local. Para o prato principal, acolhi a sugestão do chef, um bacalhau com broa de Covas do Douro, esmagada de batatas com azeitonas da Quinta.

 

Estava perfeito

Acho que nunca tive uma refeição tão estendida, digamos assim. Foi tudo com muita calma, atenção aos detalhes e, principalmente, à vista do Douro. Não queria que terminasse. Para alongar o momento ainda mais, pedi uma sobremesa, óbvio. Não vivo sem doces. Pedi uma releitura do clássico pastel de nata. Ele veio “desconstruído” e com um creme de café e algumas frutas vermelhas. Confesso que não foi nada demais. Mas, como tudo já tinha sido espetacular, o nível de comparação foi injusto.

Depois desse deleite todo, precisava descansar e curtir ainda mais o lugar. Foi que decidi então ficar para uma noite nos alojamentos da Quinta.

 

 

O pouso

Fiquei em um dos quartos mais simples. Mas a vista dele era uma das melhores dentre todos. À beira do Douro, com vista do Pinhão com um balcão (sacada) de se querer ficar do lado de fora do quarto pra sempre. O quarto era para duas pessoas embora eu estivesse sozinho. Tinha uma banheira linda e o banheiro era gigante. Aproveitei aquela vista por horas, até fazer fotos lindas das luzes do Pinhão e me recolher a dormir.

Ah sim, faltou o jantar. Este ficou para outro dia, já que não tive fome à noite, só belisquei uns docinhos que tinha comprado no caminho e tomei o restante do vinho do almoço. Afinal, tinha que fazer alguma economia também. Porque aqui a gente gosta das coisas boas, mas às vezes é preciso perder de um lado para ganhar de outro. Todas as minhas viagens são assim. Com prioridades.

 

O café da manhã

O café foi servido no mesmo restaurante do almoço do dia anterior. Fui um dos primeiros a chegar, pois abria às 8h e tinha que aproveitar o dia, não é mesmo? Tudo muito organizado e com uma qualidade única. Pelas fotos do café e da mesa posta no buffet se vê que foi difícil escolher. Mas já digo: pastel de nata é melhor que croissant ou pain au chocolat dos franceses. E tenho dito!!!

 

Este vídeo abaixo, retirado do site www.norte2020.pt, resume o que é a Quinta de La Rosa e conta um pouco de sua história e propósito.

 

O retorno ao Porto

Depois do café, um mergulho na piscina. Certo! Não poderia deixar passar. Afinal, o sol já estava alto e muito quente. Uma hora de mergulhos e precisamos partir. Volta ao quarto, banho, arrumar a mochila e ir em direção à estação do Pinhão. Ficam as lembranças, a saudade e o carinho que criei com o lugar. Mas, mais que isso, uma aventura única. O Douro é um rio que me fez sorrir, arrepiar e chorar. Só tenho que agradecer. Obrigado!
 

A conta

  • Passagens de trem (ida e volta) 22€
  • Visita e degustação de 4 vinhos 16€
  • Almoço 46€
  • Diária na Quinta de La Rosa 145€

 

Quinta de La Rosa
Quinta de la Rosa 215, Pinhão

 

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