O Cantinho da Amizade fica mesmo em Lisboa

O nome do restaurante não poderia ser mais apropriado. O Cantinho da Amizade fica aqui ao lado de casa. Entre as freguesias de Arroios e de Santo António. Perto de onde nasceu o Fado, ali na Mouraria. No entanto, nunca o tinha percebido. Não tem placa, fachada, nada. Só uma porta verde, como a de uma casa, e um micro cartaz amarelo com os horários de funcionamento. Tive que buscar por ele na internet e ligar pra ter certeza de que ele estava lá. Liguei na tarde de sexta e reservei uma mesa.

Pequeno, simples, local. Mas com uma comida e um atendimento muito simpático.

Abre de segunda a sexta, das 12h às 15h. Na sexta-feira à noite é quando a mágica do Fado acontece. Amigos de longa data se reúnem toda semana para compartilhar um pouco do amor pela música típica portuguesa. Eles chegam aos poucos, uns já vêm cedo para o jantar. Outros chegam em cima da hora, carregando em mãos os seus violões. Mas isso tudo só acontece depois do jantar. Pronto!

Minha mesa já estava posta e reservada, com pão, azeitonas pretas e bolinho de bacalhau com arroz de couvert (se você não consumir, não é cobrado). Estava louco por um bom vinho tinto. Escolhi dos mais simples, o Paredes Meias (Douro 2017). A carta deles era bem boa, com vinhos que inclusive já destaquei aqui em outro post.

Comecei com o couvert e, em seguida, pedi uns calamares ao alhinho (camarões com molho de alho e coentros). Sem pressa, fiquei observando quem chegava, de onde eram. Tinham franceses, portugueses, brasileiros, indianos, alemães. Isso tudo num restaurante que comporta umas 50 pessoas no máximo. Metade estava no pátio, onde é permitido fumar. Sim, aqui se fuma muito mais do que no Brasil. Infelizmente.

Na mesa à frente, logo que eu cheguei, sentou uma senhora de mais de 80 anos. Toda arrumada, num vestido cheio de brilho. Pediu uma garrafa de vinho, uma entrada e ficou ali até o final da noite. Estava pelo Fado e pelos amigos que chegariam mais tarde.

Após a entrada, pedi o prato especialidade da casa. Uma moqueca de peixe, camarões e lula. Acompanha arroz, batata e cenouras cozidas. Estava muito bom, mas ainda não acostumei com os tais coentros… hehehehehehehe

Enquanto os personagens da noite chegavam, pedi a sobremesa. Sorvete de baunilha com ginja (na verdade com as cerejas curtidas na ginja) misturado com sorbet de limão. Sempre em viagens, opto pelo diferente. Se não for assim, fico em casa. Não é mesmo? E estava muito bom. Mas era só sorvete… Para mim, não é lá uma sobremesa… hehehehehehe

As luzes são reduzidas, afinações são conferidas e a música começa. Um grupo de amigos simplesmente levanta da mesa de trás e toma o palco. Na verdade, quatro cadeiras dispostas no meio do salão. Simples assim! Como se estivessem na sala de casa. Amigos a tocar.

 

Cinco senhores se revezam nos violões e na cantoria. Fado tradicional, interpretado por amantes da música e da tradição lusitana. Despretensioso. Não era um show, era uma reunião de décadas de amizade.

Mais tarde percebi que havia um quadro no restaurante com as principais personalidades da noite. Comecei a rir quando reconheci um a um, pois não tinha percebido antes. Noite no fim, paguei a conta e fui cumprimentar cada um dos artistas. Elogiei a apresentação e comentei com um dos músicos sobre o quadro na parede do salão. Ele me confessou que um deles já não estava mais entre nós e que outros já estão com cabelos mais brancos do que na época da criação da obra. Eles estavam lá. Pela amizade, amor pela música e por respeitar sua cultura. E claro, pela diversão. Obrigado aos fadistas.

Que conste aqui, não há couvert artístico. Nem pedidos de colaboração. É puro amor pela arte e por compartilhar isso todas as sextas-feiras.

 

A conta

  • Couvert 2 €
  • Calamares ao alhinho 5 €
  • Moqueca 13 €
  • Vinho 8 €
  • Sobremesa 3 €

Total = 31 €

 

Cantinho da Amizade
Rua da Cruz da Carreira, 36-38, Lisboa 1150, Portugal

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